{"id":594,"date":"2021-07-08T14:01:54","date_gmt":"2021-07-08T17:01:54","guid":{"rendered":"https:\/\/mova.noblogs.org\/?p=594"},"modified":"2021-07-08T14:10:32","modified_gmt":"2021-07-08T17:10:32","slug":"apelo-a-moralidade-como-tatica-de-divulgacao-do-veganismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mova.noblogs.org\/?p=594","title":{"rendered":"Apelo \u00e0 moralidade como t\u00e1tica de divulga\u00e7\u00e3o do veganismo"},"content":{"rendered":"\r\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.pixabay.com\/photo\/2019\/09\/19\/22\/06\/sheep-4490437_960_720.jpg\" alt=\"https:\/\/cdn.pixabay.com\/photo\/2019\/09\/19\/22\/06\/sheep-4490437_960_720.jpg\" \/>\r\n<figcaption>&#8220;Moral de rebanho&#8221;<\/figcaption>\r\n<\/figure>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A &#8220;moral&#8221; \u00e9 um daqueles temas filos\u00f3ficos que \u00e9 teorizado e discutido a todo momento. Nietzsche \u00e9 um que, por exemplo, fazia cr\u00edtica ao que ele chamava de moral de rebanho: a moral que tinha como objetivo tornar-se universal.<\/p>\r\n<p>O problema n\u00e3o \u00e9 a moral em si (se \u00e9 que isso existe). O pr\u00f3prio Nietzsche coloca que n\u00f3s pensamos sobre a nossa pr\u00f3pria vida, sobre nossos pr\u00f3prios valores atrav\u00e9s da nossa moral &#8211; e que isso faz parte do ser humano. Mas a moral (esse conjunto de valores que temos como \u201ccerto\u201d ou \u201cerrado\u201d) pode ser algo que venha de encontro com a nossa pr\u00f3pria humanidade, que n\u00e3o reprima os nossos instintos, pot\u00eancias e puls\u00f5es, que aceite as particularidades da vida real.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Acontece que a moral tamb\u00e9m pode ser algo que separa a no\u00e7\u00e3o de \u201ccerto e errado\u201d da vida concreta e a eleva para o plano ideal: tornando no\u00e7\u00f5es particulares ou pertencentes a determinados grupos em conceitos universais. Essa manifesta\u00e7\u00e3o da &#8220;moral&#8221; acaba sendo o que chamamos de <em>moralismo<\/em>. <strong>Ele ignora por completo as condi\u00e7\u00f5es materiais dos indiv\u00edduos e traz recomenda\u00e7\u00f5es generalizadas ao &#8220;ser humano&#8221;, como se a humanidade fosse uma massa homog\u00eanea.<\/strong><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><!--more--><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O perigo mora justamente nesse segundo tipo. E todo mundo que j\u00e1 leu alguma coisa sobre colonialismo (um tema muito em pauta nas discuss\u00f5es pol\u00edticas veganas atualmente) sabe bem do perigo de tentar impor suas pr\u00f3prias vis\u00f5es a outros grupos e, olhando para a hist\u00f3ria, o grande buraco que essas \u201cregras morais universais\u201d nos meteu e todo o mal que causou.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images.pexels.com\/photos\/5668473\/pexels-photo-5668473.jpeg?auto=compress&amp;cs=tinysrgb&amp;dpr=2&amp;h=650&amp;w=940\" alt=\"https:\/\/images.pexels.com\/photos\/5668473\/pexels-photo-5668473.jpeg?auto=compress&amp;cs=tinysrgb&amp;dpr=2&amp;h=650&amp;w=940\" \/><\/figure>\r\n\r\n\r\n\r\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que isso tem a ver com o veganismo?<\/h2>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A partir do momento que se utiliza o apelo \u00e0 moralidade enquanto t\u00e1tica de divulga\u00e7\u00e3o do veganismo, precisa se ter muito cuidado com qual tipo de moralidade n\u00f3s queremos nos atrelar, e de que forma! Tamb\u00e9m precisa se ter o cuidado de lidar com esse tema de uma maneira mais complexa (porque \u00e9 um tema complexo!) e nem sempre a l\u00f3gica das m\u00eddias sociais permite essas discuss\u00f5es &#8211; e s\u00e3o as m\u00eddias sociais, hoje, o principal ve\u00edculo de divulga\u00e7\u00e3o de quase qualquer assunto, inclusive o veganismo.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>\u00c9 muito f\u00e1cil usar do moralismo enquanto t\u00e1tica e cair em posturas arrogantes, colonialistas e que abrem pouco espa\u00e7o para di\u00e1logo. E n\u00f3s bem sabemos da quantidade de p\u00e1ginas veganas que buscam atacar a\u00e7\u00f5es e pensamentos individuais em vez de atacar todo o sistema de produ\u00e7\u00e3o que explora animais, como se a responsabilidade pela explora\u00e7\u00e3o animal fosse \u00fanica e exclusivamente das pessoas que consomem produtos de origem animal.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Esse forte apelo \u00e0 culpabiliza\u00e7\u00e3o individual derivam da no\u00e7\u00e3o liberal dominante de que o indiv\u00edduo (ou consumidor\/mercadoria) seja a \u00fanica inst\u00e2ncia de atua\u00e7\u00e3o na sociedade. Por ser absolutamente dominante e difundida em nossa sociedade, a ideologia liberal \u00e9 representada como o modo \u201cnatural de interpretar o mundo\u201d, ou uma n\u00e3o-ideologia, e por isso a culpabiliza\u00e7\u00e3o individual talvez seja a \u00fanica resposta poss\u00edvel que tais movimentos conseguem transmitir para a opress\u00e3o especista, ao carecer de uma vis\u00e3o de mundo cr\u00edtica e hist\u00f3rica que as ideologias anticapitalistas constroem.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Essa culpabiliza\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo mascara a realidade: <strong>problemas sociais exigem solu\u00e7\u00f5es coletivas, n\u00e3o individualizadas. <\/strong>Frases como &#8220;se cada um fizer a sua parte, o mundo vai melhorar&#8221; est\u00e3o longe de apontarem uma solu\u00e7\u00e3o real. &#8220;Se voc\u00ea parar de comer carne, estar\u00e1 salvando muitos animais&#8221;, infelizmente, \u00e9 apenas uma fal\u00e1cia idealista. Continuar utilizando esses argumentos n\u00e3o vai contribuir de forma alguma para que consigamos alcan\u00e7ar a liberta\u00e7\u00e3o animal, pois essa exige uma profunda mudan\u00e7a no nosso sistema de produ\u00e7\u00e3o e n\u00e3o apenas posi\u00e7\u00f5es individuais pautadas no consumo.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2018\/11\/06\/album\/1541534583_862823_1541786462_noticia_normal.jpg\" alt=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2018\/11\/06\/album\/1541534583_862823_1541786462_noticia_normal.jpg\" \/>\r\n<figcaption>&#8220;Chega de matar animais&#8221;<\/figcaption>\r\n<\/figure>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>\u00c9 claro que, fazendo de forma respons\u00e1vel \u00e9 poss\u00edvel usar a moralidade de um jeito interessante. Muitas vezes s\u00e3o os argumentos desse tom os que mais sensibilizam ou chamam a aten\u00e7\u00e3o das pessoas (afinal, muitas gente j\u00e1 foi \u201ccapturada\u201d pelo veganismo por argumentos assim!). \u00c9 um tema delicado, que pode ser bem constru\u00eddo, se feito com responsabilidade. E \u00e9 importante que esse apelo moral n\u00e3o seja a \u00fanica forma de divulgar o movimento!<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Al\u00e9m disso, a utiliza\u00e7\u00e3o da moralidade como ferramenta, se transmutada da cr\u00edtica moral do indiv\u00edduo para uma cr\u00edtica sistem\u00e1tica do sistema capitalista e de seus financiadores, pode ter um fundamental para o processo de conscientiza\u00e7\u00e3o das formas estruturais de opress\u00e3o que combatemos, para al\u00e9m do c\u00edrculo anticapitalista.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Sensibilizar as pessoas para a causa animal nunca \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil, pois \u00e9 necess\u00e1rio que a pessoa consiga romper com todas correntes ideol\u00f3gicas atreladas ao especismo. Ademais, n\u00e3o basta a pessoa &#8220;simpatizar&#8221; com a causa &#8211; ela precisa abrir m\u00e3o de certas posturas em sua vida. Finalmente, essas pessoas conseguem perceber que a postura individual delas n\u00e3o \u00e9 o que vai acabar de imediato com a explora\u00e7\u00e3o animal. O &#8220;cada um faz a sua parte&#8221; come\u00e7a a deixar de fazer sentido quando se atrela a um certo &#8220;descargo de consci\u00eancia&#8221; que na verdade n\u00e3o ir\u00e1, efetivamente, mudar alguma coisa.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Por que, ent\u00e3o, abra\u00e7ar a causa antiespecista?<\/h2>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Porque ela tem o poder de ser constru\u00edda coletivamente, e \u00e9 sobre essa perspectiva que muitos di\u00e1logos podem ser estabelecidos. A partir disso, o anseio de &#8220;estou fazendo o meu dever e mesmo assim n\u00e3o adianta&#8221; pode ser convertido em &#8220;estou ajudando a construir as condi\u00e7\u00f5es para que mudan\u00e7as reais sejam concretizadas&#8221;.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><strong>A boa pol\u00edtica \u00e9 aquela que melhor capta os anseios e as demandas sociais, convertendo-as em respostas e propostas de car\u00e1ter coletivo. <\/strong>Nesse sentido, pode-se apresentar o veganismo como modelo de resposta aos anseios e \u00e0s demandas sociais reais, como a distribui\u00e7\u00e3o dos recursos do trabalho e a gest\u00e3o da crise ecol\u00f3gica. Da\u00ed, sim, partir para propostas locais, para que se conecte o &#8220;como&#8221; ao &#8220;porque&#8221; das coisas.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>N\u00f3s acreditamos que a solu\u00e7\u00e3o seja, como sempre, local. Talvez o movimento vegano n\u00e3o precise se preocupar tanto em dar defini\u00e7\u00f5es para si mesmo e para seus diversos conceitos, talvez n\u00e3o seja t\u00e3o importante assim encontrar uma defini\u00e7\u00e3o que funcione para todo mundo.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/image.freepik.com\/free-photo\/fresh-vegetables-fruit-market-stall_1101-2560.jpg\" alt=\"https:\/\/image.freepik.com\/free-photo\/fresh-vegetables-fruit-market-stall_1101-2560.jpg\" \/>\r\n<figcaption>J\u00e1 conhece o veganismo da &#8220;vida real&#8221;?<\/figcaption>\r\n<\/figure>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Existe um passo anterior a esse que \u00e9 criar espa\u00e7o para o veganismo no dia a dia das pessoas. As pessoas precisam se relacionar e conhecer o veganismo na vida real, n\u00e3o em textos ou discursos somente.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>N\u00e3o faz sentido algum acreditar que o comportamento das pessoas de &#8220;usar ou n\u00e3o produtos oriundos da explora\u00e7\u00e3o animal&#8221; dependa apenas de vontades ou sentimentos. Utilizar-se da culpa para convencer uma mudan\u00e7a de h\u00e1bito tamb\u00e9m cai no idealismo. Se n\u00f3s quisermos mudan\u00e7as reais, \u00e9 necess\u00e1rio que criemos condi\u00e7\u00f5es para essas mudan\u00e7as.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica aqui \u00e9 essencial. Precisamos estar nas feiras, nas lojas, nos projetos comunit\u00e1rios em defesa da liberta\u00e7\u00e3o animal e da soberania alimentar. Precisamos encontrar nosso caminho na nossa cidade: n\u00e3o \u201cde que forma o veganismo funciona?\u201d mas \u201cde que forma o veganismo funciona aqui?\u201d; n\u00e3o \u201ccomo podemos veganizar o mundo?\u201d mas \u201ccomo podemos fazer do veganismo uma op\u00e7\u00e3o neste local?\u201d; n\u00e3o \u201ccomo podemos ajudar as pessoas?\u201d mas \u201ccomo podemos ajudar essas pessoas?\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><strong>A partir do momento que se ocupa os lugares da cidade e se cria espa\u00e7o para que as pessoas sejam veganas e convivam com o veganismo, para al\u00e9m do consumo (mas como uma experi\u00eancia de vida) se cria espa\u00e7o para que a escolha de ser ou n\u00e3o ser vegano seja uma quest\u00e3o de coer\u00eancia e luta, e n\u00e3o mais de culpa e moral.<\/strong><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><strong>Eu decido aderir ao veganismo porque aquilo passa a fazer sentido na minha vida, n\u00e3o porque algu\u00e9m me disse sobre o que \u00e9 certo ou errado. <\/strong>O movimento vegano precisa se aproximar das pessoas e de suas realidades, estar dispon\u00edvel para dialogar e n\u00e3o para convencer. At\u00e9 porque quando a demonstra\u00e7\u00e3o \u00e9 n\u00edtida, n\u00e3o h\u00e1 necessidade de convencimento.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A &#8220;moral&#8221; \u00e9 um daqueles temas filos\u00f3ficos que \u00e9 teorizado e discutido a todo momento. Nietzsche \u00e9 um que, por exemplo, fazia cr\u00edtica ao que ele chamava de moral de rebanho: a moral que tinha como objetivo tornar-se universal. O problema n\u00e3o \u00e9 a moral em si (se \u00e9 que isso existe). 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